
Blog do Zanca: Por que você decidiu trabalhar com imprensa esportiva, já que o meio é repleto de homens e majoritariamente machista?
Vanessa Ruiz: Sempre tive como hobby jogar futebol. Joguei handball e futebol na faculdade, apesar de ser pequena. Quando falo, o pessoal tira sarro (rs), mas isso não tem nada a ver. Afinal, habilidade não tem nada a ver com tamanho! Enfim, tinha o esporte como hobbie, mas nunca passou pela minha cabeça trabalhar com isso. Tinha outras metas. Pensava em trabalhar com economia, jornalismo internacional. Porém, no último ano entrei na Globo e na CBN como estagiária e tinha um rodízio de profissionais. Em um determinado momento colocaram-me para trabalhar com esporte. E à medida que fui trabalhando com isso, senti que era o que realmente queria fazer. Talvez não imaginasse antes querer trabalhar com isso, pois sempre fui meio “caxias”. Não imaginava trabalhar com um hobbie, porém, percebi que era o casamento perfeito trabalhar com aquilo que eu realmente gosto, que me faz feliz e que acompanho desde pequena. E para demonstrar que estava gostando daquilo que estava fazendo, comecei a inventar pautas, reportagens mesmo que não fossem ao ar, essas coisas. E foi assim que acabei “ficando” no esporte. Sobre o machismo, posso dizer que nunca senti esse tipo de coisa. Lá na rádio, meu caminho foi muito natural. Procuro sempre fazer bem meu trabalho porque sei que sempre haverá alguém de olho por eu ser mulher. Neste caso, se eu falo uma besteira, acaba virando a maior besteira do mundo. Por outro lado, se você é um pouco boa acaba tornando-se um gênio, pois muita gente não acredita que você possa conhecer mesmo o assunto. Em São Paulo, a gente acaba não sentindo muito isso, trabalha-se normalmente como qualquer pessoa. Fora da capital, até mesmo no interior, sente-se um pouco mais a diferença, pois não há tantas mulheres.
BZ: Como é a convivência dos jogadores de futebol com os setoristas? É meramente profissional? Ou existem casos de amizade fora das 4 linhas?
VR: Quando você está fazendo setorismo, acaba passando mais tempo no clube do que na redação. Convive-se mais com pessoas dos outros veículos e com o pessoal daquele clube. No ano passado cobri o Palmeiras e lá os jogadores, para irem até o vestiário, passam pelo local onde fica a imprensa e inevitavelmente começam a conversar conosco independente do assessor querer ou não. E nessa você acaba conhecendo mais o jogador, o pessoal da comissão técnica. No São Paulo não é tanto assim, pois os jogadores até passam pelo local onde está a imprensa, mas não batem tanto papo. Contato maior você acaba fazendo durante viagens com o clube. No Santos, por exemplo, você fica bem distante dos jogadores. Tem muito repórter que é amigo pessoal de jogador de futebol. Eu, particularmente, não sou amiga pessoal de nenhum deles. Isso, a meu ver, acaba até atrapalhando, pois pode criar um compromisso e comprometer na hora de noticiar algo sobre aquele jogador. Se um dia eu tiver um amigo jogador, irei desculpar-me, mas noticiarei algo que ele fizer. Antes de tudo, deve ficar claro que sou jornalista, uma profissional. Deve-se separar o lado pessoal do profissional.
BZ: Como você avalia o São Paulo de 2009?
VR: É a promessa de uma equipe SENSACIONAL. O clube é muito ágil. Lembro que no final de 2007, fiz algumas matérias especiais para avaliar o que deu certo, porque o time conseguiu ganhar por dois anos consecutivos, entre outros. Uma das perguntas que foram feitas é: será que o time do São Paulo continuará dominando em 2008? E a resposta foi positiva, principalmente pelo lado administrativo do clube. O time nem começou o ano de 2008 bem, foi desclassificado na Libertadores e ainda teve toda aquela história de tabu no Brasileirão, de que o time que vence o primeiro turno é o time que será campeão, mas o São Paulo quebrou isso e ficou confirmado o que muitos dos especialistas haviam dito naquela reportagem, que o São Paulo conseguiria manter-se no topo porque segurou as principais peças do time e foi paciente com o trabalho do treinador. Também achei as contratações incríveis e muitas não foram concretizadas no começo do ano, mas antes do término do campeonato, o que confirma um bom planejamento do clube. O São Paulo foi bem rápido e tudo foi muito bem passado. Acho difícil que alguma dessas contratações não deem certo no clube.
BZ: Como você avalia a imprensa esportiva nacional?
VR: É muito diferente uma da outra. São estereótipos, na verdade. Por exemplo, a imprensa gaúcha é muito crítica, pega muito no pé se o time vai mal, a do Rio de Janeiro é mais alegre, a de São Paulo é mais crítica no ponto de vista deles. A do Norte fica brava conosco se dizemos que o time de lá não é favorito para uma partida.
BZ: Qual sua opinião sobre Muricy e a forma com que ele lida com a imprensa?
VR: (Muitos risos.) No começo, achava tudo muito engraçado, mesmo se tomasse alguma “patada”, até porque não era setorista do São Paulo. Sei que os setoristas sofrem um pouco, mas a gente acostuma até porque o cara é muito respeitado principalmente por não ser mau-caráter. Ele nunca ameaçou repórter, por exemplo. É um baita de um treinador. Ranzinza, mas um grande treinador.
BZ: Como você, como jornalista, avalia e analisa muitos integrantes do futebol na política, como exemplo MAC e Aurélio Miguel?
VR: É uma posição delicada quando se entra na política na esfera municipal porque você está sempre lidando com questões ligadas a, por exemplo, a localização do patrimônio de um clube, entre outros. A gente sempre confia que a pessoa mantenha uma postura ética. Se essas pessoas que estiverem envolvidas na política fizerem coisas para o bem público, não há problema, mesmo que seja para melhorar a área da região do Morumbi. Porém, que seja benéfico para todos os moradores e não só para o clube.
BZ: Em épocas de transferências, há muita venda, invenção de notícias e especulações?
VR: Não sei dizer se existe comércio de notícias, mas, no meu ponto de vista, o que ocorre e que destroi o noticiário e o jornalismo é uma busca e uma cobrança desesperada que existe em cima de repórter por um “furo”, fazendo com que muito profissional desavisado ou despreparado veicule algo que foi dito mesmo que aquilo não se concretize, pois ele não pode correr o risco de o contrário acontecer e ele ser cobrado pelo chefe por não ter falado sobre aquilo. E, nessa história, a imprensa acaba virando cartaz, “outdoor” ou até mesmo balcão de negócio. Acho isso muito complicado. Eu, por exemplo, evito colocar empresário de jogador no ar, pois sabemos que existem muitos interesses em jogo, tento ao máximo apurar a verdade, conseguir notícias diretamente do jogador e não só do empresário, enfim, nas rádios (CBN e Globo), tomamos um grande cuidado com aquilo que veiculamos.
BZ: A época das especulações é uma das mais difíceis para os jornalistas. Acontece de dirigentes confidenciarem informações aos jornalistas, mas pedirem segredo? Podemos afirmar que estes mesmos dirigentes cedem informações contraditórias para não transpassar nada de concreto?
VR: Isso existe. Chama-se “ventilar” notícia. E isso vem não só de dirigente, mas também de empresário, jogador, até mesmo para valorizar uma possível contratação ou atrapalhar uma negociação do time rival. A imprensa acaba virando uma espécie de palanque de todos os lados. Nessa hora exige-se um cuidado redobrado para que não se veicule nada que não seja realmente verdadeiro.
BZ: É possível que o clube exija um jornalista A ou B para cobrir o dia a dia do clube, ou peça sua saída por rusgas, atritos entre outros, ao veículo ao qual ele se reporta?
VR: Oficialmente, isso não existe. Só se existir algum diretor de um clube que seja amigo do dono do veículo. Mesmo porque a maioria dos meios quer que o jornalista consiga desempenhar um bom trabalho. Às vezes, se o veículo notar que um jornalista ou outro esteja “batendo boca” com algum técnico, por exemplo, esse profissional será chamado para uma conversa, para que seja avaliado o que está acontecendo. Mas falo isso pela rádio em que trabalho, pela Globo e pela CBN. Não posso responder pelos outros veículos. E até por ser no meio jornalístico, é capaz que se um clube venha a solicitar que algum profissional seja afastado, esse veículo, por isso mesmo, mantenha-o lá, por sentir que se o profissional incomoda é porque ele é realmente bom. Isso se o cara for competente, né? Se não for e ainda só causar brigas, até deve ser afastado… do jornalismo.
BZ: Se você pudesse propor ou alterar a imprensa esportiva do Brasil, o que você mudaria?
VR: Pensando no geral, existem dois movimentos que são contrários e muito discutidos que dizem respeito à questão da regionalização e da nacionalização. Nisso, não existe uma verdade ou mentira. Tem gente que defende que os programas devem ser nacionais e que devem abordar tudo, todas as regiões e outros que defendem que os programas devem ser regionais. Acho complicado impor, por exemplo, ao público do Norte e do Nordeste, um programa que fale única e exclusivamente sobre o futebol do Sul e do Sudeste. Precisaria haver um investimento para que houvesse programas regionais para valorizar a cultura e debater os problemas de cada lugar. Estou falando de rádio e TV, claro. Essa é minha opinião. Não é nenhuma verdade com “V” maiúsculo. Quanto às revistas, estão pipocando títulos sobre futebol. Gosto muito da Trivela e da Placar, que são bem diferentes e se complementam em alguns aspectos, já que a segunda é mais voltada a perfis e ao futebol brasileiro, e a primeira, a futebol internacional. Falta uma revista forte para tratar de esportes em geral, seria algo que eu gostaria muito de ler (e de fazer).
Vanessa Ruiz é jornalista, atualmente no departamento de Esportes das Rádios Globo e CBN. Possui um blog onde comenta sobre futebol, automobilismo e sobre a vida.
A Equipe do Blog do Zanquetta agradece à Vanessa Ruiz por sua disponibilidade em nos atender e pela forma simpática como fomos recebidos.
Link do blog(Vanessa Ruiz): http://vanessaruiz.blogspot.com/